Perda e desperdício alimentar: prevenir começa por uma boa conservação
Todos os anos, a 29 de setembro, o Dia Internacional de Consciencialização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos volta a colocar em destaque um problema que afeta toda a cadeia alimentar.
Em 2026, as Nações Unidas e a FAO centram esta data no potencial transformador da redução da perda e do desperdício de alimentos. Aproveitar melhor os alimentos que já produzimos permite também proteger recursos, reduzir impactos e melhorar a produtividade.
Os números dão uma ideia da dimensão do problema: cerca de 13,3% dos alimentos perdem-se globalmente após a colheita e antes de chegarem ao comércio a retalho. A este valor soma-se o desperdício gerado posteriormente nos lares, na restauração e no retalho.
Mas, se transportarmos o problema para o dia a dia de uma empresa do setor alimentar, surge uma questão:
Em que momento começa realmente a perder-se um alimento?
Nem sempre quando é descartado.
Por vezes, o problema começou dias ou semanas antes: um desvio de temperatura, condições de humidade inadequadas, um planeamento deficiente, uma embalagem insuficiente, um impacto durante o transporte ou um armazenamento que não respondia às necessidades do produto.
Quando finalmente observamos as consequências, a causa pode encontrar-se muito mais atrás na cadeia.
Por isso, é importante antecipar os riscos que podem comprometer a conservação dos alimentos durante o seu armazenamento, manuseamento e transporte.
Qual é a diferença entre perda e desperdício alimentar?
A FAO define a perda alimentar como a diminuição da quantidade ou da qualidade dos alimentos resultante de decisões e ações dos fornecedores da cadeia alimentar antes do comércio a retalho.
O desperdício alimentar, por outro lado, ocorre fundamentalmente nas etapas de retalho, restauração e consumo.
Esta diferença é importante porque delimita a margem de atuação em cada um dos processos da cadeia de abastecimento.
Para produtores, fabricantes, distribuidores e operadores logísticos, significa dirigir a atenção para tudo o que acontece antes de o alimento chegar ao ponto de venda: produção, manuseamento, armazenamento e transporte.
E é precisamente nestas etapas que podemos encontrar perdas que podem ser evitadas através de uma melhor prevenção.
O que pode provocar perdas durante a conservação e o transporte?
Não existe uma única resposta, porque nem todos os alimentos necessitam da mesma proteção.
Da mesma forma que um produto refrigerado não enfrenta os mesmos riscos que um alimento seco, uma fruta fresca também não evolui da mesma forma que um produto embalado sensível ao oxigénio.
A composição e o prazo de conservação do alimento, a sua embalagem, as condições ambientais, o tempo durante o qual permanecerá armazenado, o percurso logístico ou o manuseamento são alguns dos fatores que devemos ter em consideração.
Temperatura e cadeia de frio
Em produtos refrigerados, congelados e noutros alimentos termossensíveis, manter as condições de temperatura estabelecidas é fundamental.
O risco pode surgir no veículo refrigerado, mas também durante uma operação de carga ou descarga, num período de espera, durante um armazenamento intermédio ou perante uma ocorrência em qualquer outro ponto da cadeia de frio.
A dimensão do problema é considerável. A FAO estima que 526 milhões de toneladas de alimentos, cerca de 12% do total mundial, se perdem ou são desperdiçadas devido a uma refrigeração insuficiente. Entre os fatores identificados encontram-se a falta de refrigeração, de monitorização da temperatura e de armazenamento adequado.
Para obter um maior controlo da cadeia de frio, é importante analisar todo o percurso do alimento.
Humidade e condensação
A humidade também pode tornar-se um problema de conservação e afetar tanto determinados alimentos como as suas embalagens.
As alterações de temperatura, a humidade relativa, a permeabilidade dos materiais ou o aparecimento de condensação podem alterar o microclima que envolve o produto.
Mas, antes de decidir como atuar, é necessário compreender de onde provém essa humidade, quando surge e o que pretendemos proteger.
Nos alimentos secos e noutros produtos sensíveis à humidade, responder a estas questões é fundamental para escolher uma estratégia adequada.
Oxidação
O oxigénio é outro fator que pode comprometer a qualidade de determinados alimentos.
Mas, mais uma vez, não podemos analisá-lo de forma isolada.
O próprio alimento, o sistema de embalagem, a permeabilidade dos materiais e as condições previstas durante o seu prazo de conservação determinam o nível de risco e a estratégia de conservação.
Amadurecimento de frutas e produtos hortícolas
Os produtos frescos apresentam os seus próprios desafios.
A temperatura, a humidade, a ventilação, o manuseamento e os processos fisiológicos associados ao amadurecimento podem condicionar a sua evolução durante o armazenamento e a distribuição.
Em determinados produtos hortofrutícolas, além disso, o etileno desempenha um papel relevante nestes processos. A sua gestão adequada pode fazer parte de uma estratégia destinada a conservar o produto durante mais tempo nas condições previstas.
Impactos, choques e manuseamento
Por vezes, os problemas de conservação não são ambientais. Uma mercadoria pode viajar à temperatura correta e, ainda assim, chegar danificada.
Por exemplo, impactos, vibrações, compressões, quedas ou um manuseamento incorreto durante a carga, descarga, paletização e transporte podem provocar danos visíveis e outros que talvez não sejam imediatamente percetíveis.
Em alguns casos, as consequências surgem mais tarde, sob a forma de deterioração, perda de qualidade ou redução do prazo de conservação do alimento.
Planeamento e armazenamento
Também podemos encontrar um produto corretamente acondicionado que permanece armazenado durante mais tempo do que o previsto ou em condições que não correspondem às suas necessidades.
Uma previsão inadequada, um atraso logístico ou uma coordenação insuficiente entre os diferentes intervenientes da cadeia podem prolongar desnecessariamente a sua exposição a determinados riscos.
Por conseguinte, a conservação depende também da forma como planeamos o seu percurso.
O custo de um alimento perdido vai além do próprio produto
Quando um alimento já não pode ser comercializado, a perda económica é evidente.
Pode ser necessário repor a mercadoria, organizar um novo transporte, gerir uma reclamação, destruir ou gerir o produto afetado e dedicar horas de trabalho a determinar o que aconteceu.
E há um custo ainda maior: a perda de confiança.
Se uma mercadoria chegar repetidamente em más condições, a relação entre fornecedor e cliente pode ser afetada. E, se não dispusermos de informação suficiente para identificar onde ocorreu a incidência, podem surgir divergências entre fabricantes, distribuidores, transportadores e destinatários.
A tudo isto soma-se o impacto sobre os recursos.
Quando um alimento produzido acaba por não ser consumido, também se desperdiça parte da água, energia, matérias-primas, trabalho, armazenamento e transporte necessários para o fazer chegar até esse ponto.
Por isso, prevenir perdas tem um impacto direto na rentabilidade, eficiência, qualidade, confiança, sustentabilidade e gestão do risco.
Prevenir antes de gerir para cumprir a regulamentação
Em Espanha, a prevenção adquiriu também uma nova dimensão com a Lei 1/2025, de 1 de abril, relativa à prevenção das perdas e do desperdício alimentar.
A legislação estabelece a prevenção como primeira prioridade e define obrigações para os agentes abrangidos pelo seu âmbito de aplicação, tendo em consideração as particularidades e exceções previstas na própria lei.
Inclui igualmente boas práticas diretamente relacionadas com a conservação: dispor de infraestruturas adequadas para que o manuseamento, o armazenamento e o transporte sejam realizados em condições que minimizem as perdas e desenvolver protocolos específicos para as reduzir durante estas etapas.
Saber onde ocorrem as perdas e compreender por que razão acontecem é cada vez mais importante para gerir corretamente a cadeia alimentar.
Cada risco exige uma resposta diferente
Se as causas são diferentes, as soluções também o são.
Não existe uma resposta universal para as perdas alimentares relacionadas com uma conservação inadequada.
Primeiro compreendemos o problema e, depois, procuramos a solução.
Se o risco for a temperatura
Podemos precisar apenas de saber se foi ultrapassado um determinado limite de temperatura. Noutros casos, será necessário saber durante quanto tempo ocorreu o desvio ou dispor do histórico completo do que aconteceu durante o transporte.
E, noutras aplicações, a prioridade será manter determinadas condições térmicas.
Indicadores de temperatura, registadores de dados, sistemas de monitorização ou soluções de embalagem isotérmica respondem a necessidades diferentes.
A tecnologia adequada dependerá, portanto, do que pretendemos controlar e da informação que necessitamos de obter.
Se o problema for a humidade
Antes de escolher um dessecante, devemos saber por que razão surge a humidade e o que precisamos de proteger.
A humidade relativa, as alterações de temperatura, o ponto de orvalho, a permeabilidade dos materiais, o tempo de armazenamento e as características do produto podem alterar completamente a abordagem.
Só depois de estudar estas variáveis faz sentido avaliar dessecantes, materiais com barreira ao vapor, soluções de controlo da humidade ou sistemas de monitorização.
Se existir risco de oxidação
Em determinados alimentos, pode ser necessário controlar a presença de oxigénio para contribuir para a manutenção das condições de conservação previstas.
Os sistemas de absorção ou controlo de oxigénio podem fazer parte desta estratégia, mas não devem ser selecionados de forma isolada.
É necessário considerar o alimento, a embalagem, os materiais utilizados e as condições previstas durante o seu prazo de conservação.
Se precisarmos de gerir o amadurecimento
Nas frutas e produtos hortícolas, a resposta volta a depender do produto.
A temperatura, a humidade, a ventilação, o estado de amadurecimento, a embalagem, as condições ambientais e o percurso logístico podem influenciar a estratégia.
Quando o etileno constitui um fator relevante, as soluções destinadas ao seu controlo podem ajudar a gerir o processo, partindo sempre das necessidades específicas do produto.
Se surgirem danos durante o transporte
Quando suspeitamos que o problema se encontra no manuseamento ou no transporte, precisamos de evidências.
Os indicadores de impacto e inclinação e os sistemas de monitorização podem ajudar a detetar determinadas ocorrências e fornecer informação sobre o que aconteceu.
Porque saber que existe um dano é importante, mas saber onde e como está a ocorrer aproxima-nos muito mais da possibilidade de o prevenir.
Monitorizar para deixar de reagir
Muitas empresas desconhecem a origem de uma ocorrência:
Ocorreu um desvio de temperatura? Durante quanto tempo?
A condensação surgiu durante o armazenamento ou durante o transporte?
Os danos repetem-se sempre numa determinada rota?
Ocorrem durante o trajeto ou nas operações de carga e descarga?
Quando faltam dados, é difícil obter respostas.
Por isso, a monitorização e o registo permitem conhecer melhor as condições reais a que um produto esteve sujeito. A partir daí, podemos analisar padrões, rever processos, modificar as condições de armazenamento ou transporte e identificar pontos críticos na cadeia de abastecimento.
ODS 12: reduzir perdas significa aproveitar melhor os recursos
A prevenção das perdas e do desperdício alimentar também faz parte da Agenda 2030 das Nações Unidas.
A meta 12.3 do ODS 12: Produção e Consumo Sustentáveis estabelece o objetivo de reduzir para metade o desperdício alimentar mundial per capita no retalho e no consumo até 2030 e reduzir as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento, incluindo as perdas pós-colheita.
Aplicado ao dia a dia de uma empresa:
se conseguirmos que um alimento chegue ao seu destino nas condições adequadas, aproveitamos melhor todos os recursos que já utilizámos para o produzir, conservar e transportar.
Trata-se de prevenir perdas evitáveis e utilizar melhor os recursos disponíveis.
Estudar cada caso para uma melhor prevenção
Duas empresas podem transportar um alimento semelhante e enfrentar problemas completamente diferentes.
Mudam a embalagem, o acondicionamento, o tempo de armazenamento, a duração do trajeto, o meio de transporte, as condições climáticas, o manuseamento ou os requisitos de qualidade.
Por isso, a prevenção começa por estudar o problema.
Na Sercalia, analisamos cada aplicação para identificar os fatores que podem comprometer a conservação, proteção ou monitorização do produto e estudar as medidas mais adequadas para cada caso.
Temperatura, humidade, oxidação, amadurecimento, impactos ou condições de transporte são riscos diferentes.
E exigem respostas diferentes.
29 de setembro: da consciencialização à prevenção
O Dia Internacional de Consciencialização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos convida-nos a olhar para um problema global.
Mas, numa empresa, também podemos começar por questões muito concretas:
Onde ocorrem as nossas perdas?
Sabemos por que razão acontecem?
Dispomos de informação que nos permita identificar em que momento ocorre uma incidência?
Estamos a conservar, armazenar e transportar cada produto de acordo com as suas necessidades?
Conhecer bem o produto, o seu percurso e os riscos a que está exposto é o primeiro passo para identificar aqueles sobre os quais podemos efetivamente atuar.
Sabe o que está a provocar perdas durante a conservação ou o transporte dos seus produtos?
Na Sercalia, estudamos cada aplicação individualmente para identificar os riscos associados à conservação, proteção e monitorização dos alimentos e determinar as soluções mais adequadas para cada cadeia de abastecimento.
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